BREVE HISTÓRIA DO COLECCIONISMO DE MUNIÇÕES

O comércio de munições acompanhou obviamente as transacções das armas e acessórios respectivos desde o início, sendo de presumir que possam ter existido coleccionadores desde esses tempos, não sendo contudo conhecidos registos históricos sobre esta matéria. Assim, apenas podemos fazer referência ao coleccionismo organizado de munições que terá nascido com a iniciativa de alguns comerciantes de armas, em publicar listas de munições já obsoletas, tendo em vista incentivar o coleccionismo e que de outra forma lhes não trariam qualquer lucro.
Destes pioneiros, quase todos eles americanos, merece destaque o Sr. Walter Lutz, que nos anos 20 do séc. passado publicou a primeira lista conhecida e deu desta forma o arranque de uma actividade que desde então viria a multiplicar-se não só nos Estados Unidos como também pelo mundo fora.
Na década de 50, sobretudo pelo impulso dado por homens como Frank Davis, Charles Wilkins e especialmente James C. Tillinghast – que para além de serem eles próprios coleccionadores, possuíam estabelecimentos vocacionados para este fim – realizaram-se os primeiros encontros e feiras com o intuito de promover trocas e comércio envolvendo coleccionadores e comerciantes.
Posteriormente, com o surgimento de catálogos específicos de colecções, nomeadamente tendo em vista a realização de leilões, pela mão de Frank Wheeler, Robert Buttweiler e do já referido J. Tillinghast, um novo e definitivo alanco veio solidificar o coleccionismo de munições e todo um conjunto de actividades com ele relacionadas, sendo hoje comum encontrar na Internet vários sites dedicados a esta temática.
Fundamental no desenvolvimento destas actividades tem sido a publicação, ao longo dos tempos, de variadíssimos livros versando o estudo, identificação, caracterização e história das munições e das armas que as usam. (No nosso sector de Bibliografia encontram-se referenciadas numerosas obras e autores com enorme interesse para todos aqueles que verdadeiramente gostam destes assuntos).
Igualmente na década de 50 surgem nos Estados Unidos os dois primeiros clubes dedicados ao coleccionismo de munições e actividades correlacionadas, os quais viriam a formar mais tarde a primeira associação do mundo, “The International Cartridge Collector’s Association”, que se transformaria na actual – “International Ammunition Association”.
Esta Associação é responsável pela organização anual de uma feira internacional exclusivamente virada para as munições de colecção e à qual acorrem coleccionadores de todo o mundo.
No continente europeu surgiu no início da década de 60 o primeiro clube oficial, designado “ECCC – European Cartridge Collectors Club”, em Antuérpia, Bélgica, pela força de vontade de um homem extraordinário, Emil Timmermans, que se juntou a outros 25 coleccionadores europeus. Alguns anos mais tarde este clube transformou-se numa associação internacional, a “ECRA – European Cartridge Research Association”, a qual congrega actualmente a maior parte dos clubes e associações europeias, com cerca de 1800 associados de todo o mundo, entre os quais alguns portugueses (todos membros da nossa APCM). A ECRA publica mensalmente um boletim (“The Cartridge Researcher”), dirigido aos seus associados, nas línguas Inglesa, Francesa, Alemã e Holandesa.
A nível da península ibérica, mais propriamente em Espanha, nasceu nos finais da década de 80 a “AECC – Asociación Española de Coleccionistas de Cartuchos”, que associa neste momento cerca de 90 coleccionadores, vários estrangeiros, sendo alguns deles portugueses e membros da nossa APCM. Também a AECC publica bimestralmente um boletim com informações e artigos para os seus sócios.
Em Portugal, neste aspecto como em tantos outros, subsiste o tradicional atraso que caracteriza este país. Nunca aqui existiu a verdadeira cultura do coleccionismo de armas e sobretudo de munições, salvo raras e honrosas excepções de pouquíssimos apreciadores.
Várias razões se podem apontar como causa para esta situação, nomeadamente a falta de iniciativa política e legislativa dos responsáveis que nos governaram, afectados pela ignorância, irresponsabilidade, falta de clarividência, ausência de interesse na defesa de um património histórico e cultural e até por uma lamentável inexistência de visão económica pelo não aproveitamento comercial, possível e desejável, nesta área. Em vez disso, atamancando leis inapropriadas a um país de cultura europeia e ocidental e proibitivas de tudo e mais alguma coisa, preferiu-se destruir quantidades significativas de munições (e armas) consideradas obsoletas face à sua antiguidade e estado, afundando-as ao largo da costa ou vendendo-as a sucateiros estrangeiros por preços simbólicos e que passado algum tempo foram lançadas no mercado dos coleccionadores e antiquários a preços incomparavelmente superiores e para muitos inalcançáveis.
È neste quadro que recentemente foram publicadas duas Leis (5/2006 e 42/2006) que apesar de não agradarem a ninguém, têm contudo a virtude de terem vindo dar uma pedrada no charco de marasmo em que este sector se encontrava; isto apesar das alterações e retrocessos sofridos antes da sua publicação.
Somos apologistas de que estas actividades sejam legalizadas e controladas pelo Estado, com as vantagens que daí advêm para todos, pelo que foi também nesta perspectiva que diversos coleccionadores e estudiosos desta matéria resolveram criar em Portugal a “Associação Portuguesa de Coleccionadores de Munições – APCM”, que esperamos venha a congregar o maior número possível de pessoas interessadas e que é a primeira no nosso país exclusivamente direccionada para os fins já conhecidos, uma vez que apenas existiam associações de coleccionadores de armas onde marginalmente alguns dos seus membros agrupavam munições.
É do nosso conhecimento que foram igualmente constituídas recentemente duas outras associações de coleccionadores de armas e munições, a AACAM – Associação Açoriana dos Coleccionadores de Armas e Munições, com sede naquele arquipélago, e a ACAEDM – Associação dos Coleccionadores de Armas de Entre Douro e Minho, cuja sede se situa em Braga.
Estas associações, conjuntamente com a APCA – Associação Portuguesa de Coleccionadores de Armas, com sede em Cascais, poderão vir a constituir o grupo de congéneres com as quais a APCM espera em breve efectuar contactos, numa perspectiva de estabelecer protocolos de colaboração mútua e até de iniciativas conjuntas a desenvolver futuramente; iniciativas estas que poderão estar não só relacionadas com as actividades próprias de cada uma e de todas as associações, como também para estabelecimento de uma frente comum na defesa dos interesses de todos os seus membros.

Telmo Sequeira.
9 de Dezembro de 2006

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