Munições em Portugal

A) – AS SUAS FÁBRICAS

  1. Real Arsenal do Exército
  2. Fábrica de Armas
  3. Fábrica de Pólvora de Barcarena
  4. Fábrica de Pólvora de Chelas
  5. Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras – INDEP
  6. Fábrica Militar de Braço de Prata – INDEP

Ao abordar o coleccionismo, estudo e preservação patrimonial de munições em Portugal, não poderíamos deixar de fazer uma breve referência ás fábricas que ao longo da História deste país aperfeiçoaram e produziram os componentes que no seu todo constituem as munições de armas de fogo.

1 – “Real Arsenal do Exército”

“Arsenal do Exército”

Damião de Góis, cronista de El-Rei D. Manuel I, cujo reinado decorreu entre 1497 e 1521, refere algumas iniciativas deste monarca no campo militar, nomeadamente que (“começou as tercenas da porta da Cruz, as quaes mandou fazer para se nellas guardar e fundir artelharia, e assi as de cata que faras…“). A denominação de Tercenas da Porta da Cruz deve-se à sua proximidade a esta porta de saída da antiga muralha fernandina, junto ao rio e nas cercanias da zona hoje conhecida como Santa Apolónia. A Tercena de Cata que Faras situava-se na actual zona de S. Paulo – Cais do Sodré, sendo a sua actividade posteriormente transferida para Alcântara.

As Tercenas destinar-se-iam, para além do fornecimento de todos os artigos necessários para o armamento, equipamento e aprovisionamento da armada, a armazenar o material de guerra para o exército, possuindo igualmente oficinas para a fabricação de pólvora e armas ligeiras. As oficinas para a fundição de artilharia localizavam-se no piso térreo das edificações das Tercenas da Porta da Cruz e eram denominadas por “Fundição de Baixo”.

Durante o período de dominação de Castela os armazéns e fundição foram despojados de muito do seu material de artilharia e outras peças de valor, passando a Fundição de Baixo, naquele espaço temporal, a ser conhecida por Fundição dos Castelhanos, uma vez que era forçada a produzir só para os espanhóis.

Em 28 de Dezembro de 1640, face à necessidade de rapidamente incrementar o fabrico de armamento e pólvora, foi criada a “Tenência”, (por estar sob a chefia de um tenente-general de artilharia do reino), com o objectivo de garantir o fabrico, aquisição, guarda, conservação e distribuição de armas ligeiras, artilharia e outro material, quer para as forças terrestres quer para a armada. A Tenência estaria sediada por cima das oficinas da Fundição de Baixo, motivo pelo qual não tinha grandes possibilidades de expansão, o que levou o rei D. João V, perante as carências de armamento, pólvora e projécteis, a ordenar a construção (entre 1716 e 1732) de outros estabelecimentos em terrenos próximos, designados como “Fundição de Cima” ou “Fundição de Canhões”, mais propriamente no actual Largo do Outeirinho da Amendoeira, junto ao Campo de Stª. Clara.

Em Junho de 1726 deflagrou um enorme incêndio nos edifícios onde se encontrava instalada a Tenência (na Fundição de Baixo), que durou oito dias, destruindo grande parte das construções.

D. João V resolve ordenar a sua reedificação, nomeando para o efeito o arquitecto francês Fernando de Larre, o qual deixaria a sua marca de qualidade no imponente pórtico do edíficio, que é actualmente a entrada principal (lado oeste) do Museu Militar de Lisboa.

A obra não estava ainda concluída quando sobreveio a morte do rei, acabando por ser enormemente danificada com o terramoto de 1755. Cinco anos depois, por ordem do marquês de Pombal, procedeu-se à sua reparação e conclusão.

Por alvará de 24 de Março de 1764, do marechal general dos exércitos, conde de Lippe, a Tenência passa a chamar-se “Real Arsenal do Exército”.

 

real_arsenal_do_exercito

(Real Arsenal do Exército – fins do séc. XVIII)

Apesar de a administração do Real Arsenal do Exército passar a funcionar nas instalações da extinta Tenência, antiga Fundição de Baixo, este edifício continuou a ser utilizado também como depósito de peças de artilharia, espingardas e outras armas de fogo e brancas.

Nesse mesmo ano ficou concluído o restauro daquele edifício, em que hoje se encontra parte do Museu Militar de Lisboa, mas no entanto as obras definitivas só seriam terminadas cerca de uma centena de anos depois.

Desde a sua fundação em 1764 até 1802, o Real Arsenal do Exército foi constituído por várias fábricas, depósitos, repartições e paióis, chegando a ter 23 oficinas com cerca de 2000 operários, estendendo-se as suas instalações por diversos locais daquela zona da cidade, nomeadamente no local em que se situa o actual Estado Maior do Exército, e no qual se encontravam as dependências destinadas ao ensino e alojamento dos aprendizes do Arsenal.

Um alvará de 21 de Outubro de 1791 estabeleceu o regulamento pelo qual passaram a reger-se o Arsenal Real do Exército, a Intendência Geral da Fundição de Artilharia e o Laboratório de Instrumentos Bélicos.

Embora um decreto de 12 de Janeiro de 1802 reorganizasse esta instituição, atribuindo a sua direcção à Junta de Fazenda do Arsenal do Exército, a partir deste ano a actividade do Arsenal diminuiu consideravelmente, e a sua situação só viria a melhorar nos reinados de D. Pedro IV e de D. Maria II, talvez devido aos atribulados acontecimentos político-militares vividos nessa época, um dos mais conturbados períodos da nossa história, com as lutas entre liberais e absolutistas, envolvendo vários episódios de guerra civil, a Belenzada, a Revolta dos Marechais, a Maria da Fonte e a Patuleia.

Naquele mesmo ano de 1802 foi criado o Real Arsenal do Exército do Porto, que veio substituir o Almoxarifado de Armas e Munições do Norte – existente desde 1776, para que (“…mais facil, prompta e economicamente possão ser servidas as Praças das tres Provincias de Traz-os-Montes, Minho e Beira…“). O material de guerra ali armazenado estava classificado e organizado de modo semelhante ao do Arsenal de Lisboa, existindo quatro divisões correspondentes às armas de infantaria, cavalaria e artilharia e ainda uma outra destinada ao fardamento. Para além da guarda e manutenção do material de guerra, equipamentos e fardamentos, o Arsenal tinha nas suas competências proceder à compra e distribuição de pólvora e de panos de linho para abastecimento do exército. Este Arsenal do Porto foi reorganizado em 1809, vindo a ser extinto em 1812.

O Real Arsenal do Exército, segundo o regulamento provisório de 1 de Julho de 1834 é definido como (“estabelecimento do estado que tem por objecto fabricar, conservar e fornecer armas, máquinas de guerra, munições e outros objectos, que são inerentes ao uso do exército“). Pelo mesmo regulamento o Arsenal sofreu reformas e melhoramentos, sendo extinta a Junta de Fazenda e substituída pela Inspecção Geral de Artilharia.

Entre 1842 e 1847, o Barão de Monte Pedral, tenente general José Baptista da Silva Lopes, que havia sido nomeado em 27 de Março de 1840 Inspector do Real Arsenal do Exército, determinou a “classificação de modelos de máquinas e aparelhos raros e curiosos que existam no arsenal do Exército“, tendo sido por sua iniciativa criado um Museu de Artilharia, constituído por vários artigos militares e sediado no Campo de Santa Clara, na Repartição da Fundição de Cima, onde ficariam diversos objectos e peças de artilharia, enquanto na Repartição da Fundição de Baixo ficariam armas de fogo portáteis e brancas.

Em 10 de Dezembro de 1851 nova reestruturação envolve o Arsenal, que nesta altura é constituído pelas oficinas da Fundição de Cima, tendo ao seu serviço (“fundidores, torneiros, latoeiros, lavrantes, abridores e especialistas no fabrico de instrumentos músicos metálicos”), de Santa Clara (“litografia, carpintaria de reparos e de obra branca, pintores, tanoeiros, serradores, cuteleiros, correeiros, seleiros, espingardeiros e coronheiros”), do Trem de Elvas (“carpinteiros, ferreiros e serralheiros”) e da Fábrica de Pólvora em Barcarena. Na sua dependência estão ainda os armazéns de pólvora da quinta de Beirolas (que anos mais tarde passariam a Depósito Geral de Material de Guerra), o Colégio dos Aprendizes e o então oficialmente criado, Museu de Artilharia de Santa Clara.

Dois anos depois, em 24 de Outubro de 1853, são-lhe agregadas mais três unidades fabris: a pirotecnia da Cruz da Pedra, a refinaria de salitre e enxofre de Alcântara e as carvoarias de Rilvas.

ilustracao_do_RAE

(Ilustração do R.A.E em meados do séc. XIX)

Mesmo tendo recebido importantes melhoramentos após 1867, o Real Arsenal do Exército sofre com o General Fontes Pereira de Melo, ministro da Guerra de D. Luís I, a sua primeira extinção enquanto organismo aglutinador dos diversos estabelecimentos fabris militares. Por decreto de 13 de Dezembro de 1869, é estabelecida a Direcção Geral de Artilharia que passa a substituir o Arsenal, superintendendo no Depósito de Material de Guerra e nos estabelecimentos fabris então implementados: Fundição de Canhões (Fundição de Cima), Fábrica de Armas (Santa Clara) e Fábrica de Pólvora de Barcarena. Provisoriamente ficaram separadas a refinaria de Alcântara e a pirotecnia da Cruz da Pedra, entretanto transferida para Braço de Prata; por sua vez, o Museu de Artilharia passou a depender do Director da Fábrica de Armas, até 1902,  tendo em 1876 (sete anos após a primeira extinção do R.A.E), todo o seu acervo sido transferido para o local onde estivera o extinto Colégio dos Aprendizes do Real Arsenal do Exército, na Fundição de Baixo.

Como se constata, a origem e o desenvolvimento do Museu de Artilharia, actual Museu Militar (após 1926), encontram-se intimamente ligados ao Real Arsenal do Exército, quer pela partilha do mesmo espaço físico quer pelo aproveitamento e exposição do legado existente no R.A.E.

Nos finais do séc. XIX, perante a incapacidade de acompanhar as novas técnicas  surgidas no fabrico das armas e munições e até a alteração dos próprios métodos de fazer a guerra, o nosso país é levado a importar significativas quantidades de armas portáteis, munições e artilharia.

Confrontadas com a rápida evolução militar daquela época, as entidades governamentais sentem a necessidade de renovar e fortalecer o sector das unidades fabris ligadas ao exército e armada. Com este intuito é nomeado o coronel de artilharia Francisco de Sales Ramos da Costa como responsável de um grupo de trabalho incumbido da reactivação e renovação do Real Arsenal do Exército, bem como da fundação das Fábricas de Pólvora sem fumo (em Chelas) e de Projécteis de Artilharia (em Braço de Prata), o que é efectivamente realizado com enorme competência e brilhantismo.

Em 1895 renasce o Arsenal.

A 11 de Setembro desse ano é publicada na Ordem do Exército nº 9 – 1ª Série, o decreto que reorganiza o exército. No seu artigo 51º lê-se que o Arsenal do Exército compreende os seguintes estabelecimentos:

I – Fundição de Canhões;

II – Fábrica de Armas;

III- Fábrica da Pólvora (Barcarena);

IV- Fábrica da Pólvora sem fumo (Chelas);  referida, mas apenas inaugurada em 1898.

V – Depósito de Material de Guerra; e

VI- Armas de Artilharia.

 

francisco_sales_ramos_costa

(Francisco de Sales Ramos da Costa)

Todavia, sete anos depois, no dia 18 de Dezembro de 1902 é publicado um decreto real que aprova o novo regulamento do Arsenal do Exército (“destinado ao fabrico, aquisição, distribuição e concerto do material de guerra necessário para serviço do exército, á conservação do material de guerra em depósito e á colleccionação de artigos que, pelo seu valor histórico e militar, convenha conservar.”) e no qual apenas estão previstos os seguintes estabelecimentos:

I – Fábrica de Material de Guerra em Braço de Prata (prevista, mas só inaugurada em 1907)

II – Fábrica de Pólvora em Barcarena

III – Fábrica de Pólvora em Chelas

IV – Depósito Geral do Material de Guerra

V – Museu de Artilharia (volta à gerência do Arsenal, deixando a alçada do director da Fábrica de Armas)

Em minha opinião, é aqui já notória a renovação que se pretende levar a efeito neste sector. Efectivamente já não são incluídas a Fundição de Canhões (Fundição de Cima) e a Fábrica de Armas, por se encontrarem manifestamente obsoletas e por isso mesmo a sua produção ser insuficiente, economicamente insustentável e principalmente desajustada perante a evolução do fabrico de armas, de que é exemplo o fim da produção de canhões em bronze, durante o reinado de D. Carlos I, uma vez que as modernas fábricas europeias já os produziam totalmente em aço.

Em sua substituição aposta-se na construção da nova fábrica de Braço de Prata e na modernização das fábricas de Barcarena e de Chelas.

Apesar da designação oficial ser, como vimos, “Real Arsenal do Exército” (ou como alguns preferem, em linguagem mais moderna, “Arsenal Real do Exército”), pelo menos até à queda da monarquia em 1910, desde sempre esta instituição foi simplesmente e no trato comum denominada “Arsenal do Exército”.

Já depois da implantação da república, um decreto de 26 de Maio de 1911 passa a designar oficialmente o estabelecimento apenas como “Arsenal do Exército”, colocando-o sob a direcção de um oficial general e atribuindo-lhe a competência para a (“aquisição, construção, reparação e conservação do material de guerra”).

Pelo decreto n.º 14.128, de 19 de Agosto 1927, do novo executivo da Ditadura Militar, o Arsenal do Exército é extinto, transitando as suas atribuições para a Direcção da Arma de Artilharia, que passou a supervisionar as unidades fabris militares, entre as quais as direccionadas para o fabrico de munições e cujas designações serão a partir daí: Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios, em Barcarena; Fábrica de Cartuchame e Pólvoras Químicas, em Chelas e Fábrica de Munições de Artilharia, Armamento e Viaturas, em Braço de Prata.

arsenal_do_exercito_1907

(Arsenal do Exército em 1907 – lado Sul)

2 – “Fábrica de Armas”

Existem poucas referências da chamada “Fábrica de Armas”, havendo algumas indicações de que o edifício onde viria a ser instalada foi possivelmente construído entre 1760 e 1775, no reinado de D. José I, sobre as ruínas do antigo Mosteiro de Santa Clara destruído pelo terramoto de 1755, num conjunto de edifícios dessa época que ainda hoje existe no Largo Dr. Bernardino António Gomes (Pai), em Lisboa, onde funcionam actualmente algumas instalações das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (OGFE).

Aqui foram instaladas várias oficinas militares, integradas no Arsenal do Exército, entre as quais uma vocacionada para produzir armas de fogo portáteis e as balas para aquelas, passando a ser designada como Oficina de Espingardeiros de Santa Clara.

Em 1855 o rei D. Pedro V, acabado de subir ao trono, mostrou-se imediatamente interessado em todos os assuntos relacionados com a modernização das forças militares e seu armamento, empenhando-se directamente na sua resolução. Logo no início do seu curto reinado visitou o Arsenal do Exército e deu instruções ao ministro da guerra para apressar a aquisição de armamento novo para o exército.

Nessa altura voltou a colocar-se a já anteriormente debatida questão sobre se os futuros armamentos deveriam ser importados de fabricantes europeus ou produzidos numa fábrica de armas e sob a alçada do Arsenal do Exército, o que reduziria os custos e tornaria o país independente nesta matéria.

Resolveu então D. Pedro V nomear uma comissão liderada por um oficial do exército para elaborar um parecer sobre a exequibilidade e conveniência da instalação da referida fábrica de armas no Arsenal.

Realizados os convenientes estudos, foi efectuado um relatório dando conta da preferência para a sua instalação na Oficina de Espingardeiros de Santa Clara, bem como dos custos previstos, sendo o mesmo dado a conhecer aos governantes em Outubro de 1856. No entanto e por falta dos fundos necessários para esta realização, ficou a mesma suspensa durante vários anos. Apesar disto, aquelas oficinas, com as máquinas e ferramentas de que dispunham na altura, iniciaram em 1861 o fabrico de espingardas “Enfield, m/860”, de calibre 14mm, bem como o da respectiva munição em papel cartuchinho.

Somente em 1864, já no reinado de D. Luís I, viria a ser instalada naquelas oficinas a maquinaria mais moderna, de origem inglesa, necessária ao fabrico de pistolas, espingardas e carabinas para o exército, bem como das munições próprias dessas armas.

A Oficina de Espingardeiros de Santa Clara, após as reformas ocorridas no sector militar em 1868 e 1869, passou a designar-se “Fábrica de Armas”.

 

fabrica_armas_

(Fábrica de Armas em 1898)

Segundo alguns autores existem registos atestando ali ter-se procedido, entre 1872 e 1875, à montagem e acabamento das espingardas “Enfield-Snider m/872”. Nesta fábrica decorreram igualmente a produção e aperfeiçoamento dos primeiros protótipos das espingardas Guedes em 1883 e 1884, em calibre 11mm Gras, não havendo averbamentos de que também tenham sido produzidas, em quantidades significativas, as munições originais da arma na sua versão final, nomeadamente o modelo de 1885, o 8x60mmR Guedes. Aparecem algumas referências que ali tenha sido produzido um pequeno número de munições daquele modelo, sem qualquer marcação na sua base, possivelmente após a instalação da maquinaria para a produção do 8x60mmR Kropatschek (entretanto adoptado), uma vez que os invólucros eram praticamente iguais. Para além deste, igualmente se produziram, em anos posteriores, munições de vários outros calibres, nomeadamente o 14mm (. 577 Snider), o 6,5 Mannlicher e o 9,1 Abadie.

Constata-se assim que a Fábrica de Armas continuou a sua produção autonomamente, durante a extinção do Arsenal entre 1869 e 1895, tendo prosseguido a sua actividade no fabrico de munições pelo menos até 1906, apesar de já não estar prevista a sua existência oficial no decreto real de 1902 supra citado. A partir daquela altura limitou-se ao fabrico de arreios, correias e outros equipamentos afins, sob a supervisão da Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata, até à remodelação de 1927, em que passou a designar-se por Fábrica de Equipamentos e Arreios.

3 – “Fábrica de Pólvora de Barcarena”

“Real Fábrica da Pólvora”

“Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios”

“Fábrica Militar de Pólvoras e Explosivos”

“Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena”

Não se conhece a data exacta da fundação da “Fábrica de Pólvora de Barcarena”, mas apontam alguns historiadores como mais provável que tenha sido entre 1617 e 1621, sob o domínio espanhol e aproveitando as antigas instalações da Casa de Armaria de Barcarena que o rei D. Manuel I ali mandara construir mais de cem anos antes, na mesma altura em que ordenara a construção de oficinas de pólvora negra nas Tercenas de Alcântara e da Porta da Cruz (na zona onde hoje se ergue o Museu Militar, em Santa Apolónia), então nos arredores da capital.

Situada próxima de Lisboa e do rio Tejo e servida pelas águas da ribeira do mesmo nome que lhe forneciam a energia motriz necessária ao funcionamento da sua, naquele tempo, rudimentar maquinaria, estava num local privilegiado para o abastecimento das forças militares e das embarcações portuguesas que então sulcavam os mares.

A chamada “fábrica de baixo”, que ainda hoje subsiste, foi inaugurada em 8 de Dezembro de 1729 com a denominação de “Real Fábrica da Pólvora”, e em 1817 inicia a produção a designada “fábrica de cima”, continuando todavia o conjunto a ser conhecido ao longo dos tempos, mesmo em documentos oficiais, como Fábrica de Pólvora de Barcarena.

Em Janeiro de 1757 é transferida para a fábrica de Barcarena a produção de pólvora da fábrica de Alcântara, aqui permanecendo apenas a refinação do salitre e do enxofre.

A partir de 1791 passou a estar na dependência do Real Arsenal do Exército e após o ano de 1849 sob a sua administração directa, até à primeira extinção deste em 1869, altura em que passou a ter gestão autónoma, sob fiscalização da Direcção Geral de Artilharia.

Foi sobretudo com a nova organização comercial iniciada por volta de 1854 e a posterior construção, a partir de 1878, de novas instalações, oficinas e a aquisição de nova maquinaria, que esta fábrica se impôs como a mais importante do país no fabrico de pólvora negra; importância esta reforçada em 1887, em que a refinação de salitre e enxofre até aí efectuada em Alcântara, passa definitivamente para Barcarena e em 1888, com a transferência da pirotecnia de Braço de Prata que após este ano lhe ficou agregada, aumentando significativamente a sua produção e exportações.

Na sequência da restauração do Arsenal em 1895, a Fábrica de Barcarena ficou novamente sob a sua administração até à extinção definitiva daquele em 1927.

Como já foi referido em (1), por Decreto real de 1902 foi regulamentado o funcionamento dos diferentes estabelecimentos que constituíam o chamado Arsenal do Exército, entre eles a Fábrica de Pólvora de Barcarena (“especialmente destinada ao fabrico das pólvoras negras, tanto das que são aplicadas aos serviços militares como das de venda, á manufactura dos artifícios pirotécnicos e ao carregamento dos cartuchos em que forem empregadas as pólvoras negras”).

Posteriormente à extinção do Arsenal do Exército as instalações de Barcarena passam a designar-se “Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios” por Decreto de 19 de Agosto de 1927, abrindo as portas á industrialização e à livre concorrência comercial. Foi nesta fase que a fábrica sofreu o seu maior incremento, com a aquisição de nova maquinaria, modernização do seu laboratório e estreitamento na cooperação com as escolas práticas do Exército. Foram então ali produzidos diversos tipos de pólvoras de caça e militares, bem como rastilhos e todo o tipo de artifícios e engenhos aplicados nas novas formas de guerra entretanto surgidas.

Esta fábrica laboraria com esta designação até 1947, altura em que foi profundamente remodelada e passou a chamar-se “Fábrica Militar de Pólvoras e Explosivos”, com uma maior diversificação de produtos de pólvoras químicas para fins militares, e (“destina-se ao fabrico de pólvoras físicas e químicas, de explosivos e artifícios especializados necessários à constituição de munições de todos os calibres e ao exercício da actividade militar. A este estabelecimento compete o carregamento das munições de artilharia ou de quaisquer outras cujo fabrico ou acabamento não estejam especialmente afectos a outro estabelecimento.”)

    portico_fabrica_miliar1948portico_fabrica_miliar2003

(Pórtico da Fábrica Militar de Pólvoras e Explosivos – 1948 e 2003, respectivamente)

Seguiu-se um período de 25 anos de arrendamento a particulares, nomeadamente uma companhia belga, por escritura pública de 19 de Setembro de 1951, autorizada pelo decreto-lei n.º 38350, de 1 de Julho de 1951,denominando-se então “Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena”.

Em 1957 foi edificada uma nova instalação, designada por fábrica M1, destinada à produção de pólvoras de base simples (nitrocelulose), o que não impediria no entanto o fecho da Fábrica pouco tempo depois, só voltando a ser reactivada em 1976 novamente sob a égide do Estado e gestão da FNMAL, para a produção de pólvoras de caça, numa última tentativa para manter em funcionamento uma instituição secular completamente desactualizada e degradada.

Em 1985 esta unidade fabril passou a integrar definitivamente a INDEP, encerrando completamente a sua actividade em 1988.

Barcarena albergou assim, durante vários séculos, algumas das mais importantes instalações fabris do país na produção de armas, pólvoras e munições, as quais sofreram ao longo da sua história diversas vicissitudes motivadas por várias explosões e desastres sangrentos, existindo no local uma lápide evocativa das dezenas de vítimas mortais.

Em 1994 a Câmara Municipal de Oeiras, no intuito de preservar a memória histórica da Fábrica de Pólvora de Barcarena, adquiriu-a e restaurou-a com fins museológicos. Aconselhamos vivamente uma visita a este lugar, cujas espessas e claustrais paredes encerram um inegável romantismo e uma doce nostalgia.

4 – “Fábrica de Pólvora Sem Fumo”

“Fábrica de Pólvora de Chelas”

“Fábrica de Cartuchame e Pólvoras Químicas”

Nascida da necessidade premente de acompanhar o progresso técnico que já se fazia sentir no campo militar em alguns países europeus, nomeadamente após os trabalhos desenvolvidos em 1886 pelo químico francês Paulo Vieille na criação de uma nova pólvora que ele designava por pólvora “branca” (por oposição à pólvora negra, demasiado fumarenta), surge nos terrenos anexos ao antigo Convento das Freiras, ou de S. Félix, em Chelas, uma pequena oficina inicialmente designada por “Fábrica de Pólvora Sem Fumo”.

Tais instalações surgem sob o impulso do coronel de artilharia Francisco de Sales Ramos da Costa (igualmente fundador da Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata e reorganizador do Arsenal do Exército), tendo sido seu primeiro director o então capitão de artilharia António Xavier Correia Barreto, responsável pelos estudos e experiências previamente efectuados em Portugal sobre a chamada pólvora sem fumo, com base nas descobertas de Vieille.

barreto v

(António Xavier Correia Barreto)

Em 1885 este oficial havia publicado um trabalho sobre a Química e as Pólvoras, o que levou o ministro da Guerra a encarregá-lo de criar um tipo de pólvora sem fumo para o nosso Exército.

Na Ordem nº 10 do Comando Geral de Artilharia, de 30 de Setembro de 1895, lê-se que a Secretaria da Guerra havia mandado adoptar no exército, para as munições das armas de 8 mm, a pólvora do invento e fabrico do capitão Correia Barreto, sem prejuízo dos aperfeiçoamentos que se entender dever introduzir no indicado explosivo.

Inaugurada em 14 de Março de 1898, esta fábrica passou a partilhar as instalações conventuais com o então Arquivo do Ministério do Exército que ali já se encontrava desde 1889.

Nestes edifícios encontram-se actualmente instalados parte do Arquivo Histórico Militar e o Arquivo Geral do Exército.

Como já anteriormente referido, por Decreto real de Dezembro de 1902, é regulamentado o funcionamento dos diferentes estabelecimentos que constituíam o chamado Arsenal do exército, nos quais se integrava esta Fábrica de Pólvora de Chelas, (“destinada ao fabrico de pólvoras chimicas e de cartuchame para armas portáteis e seu carregamento com pólvora sem fumo. Haverá também n’esta fabrica as secções que forem julgadas necessárias, pelas quaes se dividirão as officinas destinadas ao fabrico dos componentes das pólvoras chimicas, á preparação d’estas, ao fabrico dos fulminatos, cápsulas, cartuchame e respectivo acondicionamento.”). Todavia, somente em 1904, com o desenvolvimento acelerado do armamento e munições, foi reconhecida a indispensabilidade de urgentes e grandes obras de ampliação desta unidade fabril, dotando-a simultaneamente de máquinas modernas e de rendimento proporcional às necessidades crescentes. Percebendo-se então a vantagem evidente em que o mesmo estabelecimento produzisse as munições completas, foram adquiridos não só os maquinismos destinados ao fabrico de pólvoras, como também os imprescindíveis para a produção de todos os elementos metálicos do cartucho, originando a criação de novos sectores, entre os quais se destacavam pela sua importância e dimensão, a de cartuchame, a de carregamento de cartuchos e a do fabrico de ferramentas, produzindo-se nessa época significativas quantidades de pólvora sem fumo e cerca de 60.000 munições/dia para espingardas de infantaria e outras armas portáteis.

Durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) a produção desta fábrica mostrou-se essencial para o fornecimento ao nosso exército, nomeadamente no que diz respeito a pólvoras de artilharia, cartuchos de espingarda, metralhadora e pistola.

Passa em 1927 a designar-se por “Fábrica de Cartuchame e Pólvoras Químicas”.

A maior parte do fabrico desta unidade centrava-se, sobretudo na década 1935-45, nas munições então utilizadas não só nas forças militares nacionais, como também europeias, nomeadamente os calibres 7,7x56mmR; 7,92x57mm Mauser e 7,65mm Parabellum. Crê-se aliás, uma vez que terá sido secretamente acordado entre o governo português e o General Franco, que tenha sido esta fábrica a produzir numerosos lotes de munições para as forças nacionalistas durante a Guerra Civil de Espanha, nomeadamente em calibre 9mm Parabellum com a marcação “SPC” e em calibre 7,92 Mauser, apenas com a marcação “1937”, com os componentes e alguma maquinaria fornecida pelos alemães, que abasteceriam  também aquelas forças  com armas desses calibres.

Terminou a laboração completa de munições por volta de 1947, altura em que quase todo o seu espólio, nomeadamente o seu sector de fabrico metálico e carregamento, transitou para a nova Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras, em Moscavide, tendo esta transição decorrido de forma faseada e demorado alguns anos a concluir, mantendo-se ainda em Chelas durante esse período o fabrico de pólvora, nitroglicerina, nitrocelulose, fulminato de mercúrio e cápsulas fulminantes.

fabrica_cartuchame

(Fábrica de Cartuchame e Pólvoras Químicas – 1939)

5 – “Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras” 

      “Indústrias Nacionais de Defesa, EP – INDEP”

      “Indústrias e Participações de Defesa, SA – INDEP”

A lei nº 2.020, de 19 de Março de 1947, estipulou que o Ministério da Guerra passaria a ter na sua directa dependência várias unidades fabris, entre as quais a “Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras”, destinada (“ao fabrico e recuperação das diferentes espécies de cartuchos para armas portáteis, bem como ao fabrico e recuperação das munições para bocas de fogo de pequeno calibre quando o apetrechamento industrial da fábrica aconselhe que aí se efectuem, incluindo sempre o seu carregamento.”)

Herdeira do espólio, das competências e finalidades da fábrica de Chelas, onde ainda se manteria por alguns anos o sector de química, desde logo esta nova fábrica, estabelecida em amplas e modernas instalações situadas em Moscavide, iniciou a elaboração das mais variadas munições de armas ligeiras, através de novos processos de fabrico. Possuía na sua organização dois sofisticados laboratórios, um de Pólvoras e Explosivos e um de Ensaios Balísticos, combinando conjuntamente diversos sectores, nomeadamente de Metrologia, Química e Física.

Esta fábrica, bem como a FMBP, viria a beneficiar com a entrada de Portugal na OTAN e também com o auxílio do chamado Plano Marshall, em 1949-50, tendo recebido importante ajuda financeira para a montagem da maquinaria necessária à produção dos componentes metálicos e das instalações de carregamento, acabamento e embalagem de munições para armas ligeiras, bem como para o aperfeiçoamento técnico de muito do seu pessoal.

Esta modernização permitiu à FNMAL passar a receber encomendas de vários países para o fabrico de munições de diversos calibres, logo a partir de 1953.

Em 1958 esta unidade fabril veio a iniciar a produção do calibre 7,62x51mm, com exportações quase imediatas para diferentes compradores, sendo a mais significativa para a República Federal Alemã, em 1959-60, de 120 milhões de unidades daquele calibre, à qual se seguiriam outras de igual importância, em anos subsequentes.

A fim de poder dar resposta a importantes encomendas, sobretudo por parte da RFA, nomeadamente de munições tracejantes do referido calibre 7,62x51mm, a FNMAL procedeu a melhoramentos nas suas linhas, permitindo-lhe aumentar a produção para 300.000 munições por cada 8 horas de trabalho. Em 1963 a RFA viria a encomendar um lote de 210 milhões de peças deste calibre.

Durante o conflito ultramarino a FNMAL, a fim de poder responder ás necessidades para fornecimento das Forças Armadas Portuguesas e em simultâneo dar satisfação ás encomendas alemãs, viu-se obrigada a laborar continuamente usando para o efeito um segundo turno de trabalho.

Em 1965 a fábrica obteve a homologação NATO para a munição 7,62x51mm ali fabricada, após a realização de numerosos testes balísticos, o que veio possibilitar a abertura de novos mercados. Igual homologação vem a recair em 1969 sobre a munição tracejante do mesmo calibre.

Ao longo da sua existência, na FNMAL foram fabricados vários calibres e tipos de munições, nomeadamente 7,92x57mm Mauser; 9x19mm Parabellum; 7,7x56mmR; 7,62x51mm e 7,62x39mm. Igualmente foram aqui produzidas as chamadas munições sub-calibre, ou de tiro reduzido, para os lança foguetes Instalaza, em calibres 7,62x24mm Regaña e 7,92×24,5mm Regaña, de concepção espanhola.

O decreto-lei n.º 517-A/80, de 31/10, veio extinguir a Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras. Do preâmbulo desta norma transcreve-se:

“A evolução verificada no sector de armamento da indústria militar e a necessidade de adequar a estrutura da Fábrica Militar de Braço de Prata e da Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras às novas exigências empresariais, de forma a obter uma melhor satisfação das exigências militares, em termos de operacionalidade e produtividade, aconselharam a fusão dos referidos estabelecimentos fabris e a sua transformação em verdadeiras e próprias empresas públicas.

Mas a nova empresa terá de diversificar a sua produção para ficar em menor dependência das oscilações do mercado estritamente militar, como convém à manutenção da qualidade da sua técnica e dos seus fabricos, à sua operacionalidade e à fixação do seu pessoal, razão por que foi entendido preferível desintegrar esta empresa da estrutura exclusiva das forças armadas.”

laboratorio_metrologia

Laboratório de Metrologia

maquinaria_FNMAL

Maquinaria no interior da FNMAL

Maquinaria_interior_FNMAL_2Maquinaria_interior_FNMAL_1

(Maquinaria no interior da FNMAL / INDEP)

O decreto-lei n.º 515/80, de 31/10, cria a empresa pública “Indústrias Nacionais de Defesa, EP – INDEP” – que (“tem por objecto principal o estudo, desenvolvimento, produção, ensaio e reparação industrial de materiais militares (armamento), designadamente os seguintes: Armas de pequeno e médio calibre, morteiros, lança-foguetes e respectivas munições; Minas, bombas, mísseis e armas anticarro; Espoletas e aparelhagem óptica e electrónica de direcção de tiro; Viaturas blindadas; Pólvoras, explosivos, iniciadores e carregamento de munições. Cabe-lhe em exclusivo, equipar as forças armadas nacionais e outras forças militares e militarizadas com o material que produza e que tenha sido homologado por aquelas.”)

O decreto-lei n.º 485/85, estabeleceu quais os bens imóveis que transitaram para a posse da INDEP.

Imóveis afectos à Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras:

a) Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras, referenciado pelo Exército como PM-45- Moscavide, Loures;
b) Paióis do Mocho, referenciado pelo Exército como PM-43 – Loures;
c) Quartel da Costa da Luz, referenciado pelo Exército como PM-79 – Lisboa;
d) Paiolim do Quartel da Costa da Luz, referenciado pelo Exército como PM-207 – Lisboa;
e) Paiol do Moinho da Costa da Luz, referenciado pelo Exército como PM-208 – Lisboa;
f) Fábrica de Pólvoras M1 Barcarena, referenciado pelo Exército como PM-87 – Oeiras;
g) Fábrica de Pólvoras de Barcarena, referenciado pelo Exército como PM-1 – Oeiras.

O decreto-lei 362/91, de 03/10, transforma as Industrias Nacionais de Defesa, EP – INDEP, em sociedade anónima de capitais públicos, passando a denominar-se “Indústrias e Participações de Defesa, SA. – INDEP”

fnmal 70

(FNMAL – anos 70)

indep 90

                         (Indústrias e Participações de Defesa, INDEP-anos 90)                    

Nos finais de 1996 a INDEP, SA é integrada num grupo designado EMPORDEF – Empresas Portuguesas de Defesa, com o objectivo de a adequar ao mercado, sujeitando-a às regras de concorrência, sem prejuízo da disponibilidade para resposta preferencial à satisfação das necessidades da Defesa Nacional.

Submetida ás novas realidades e após uma substancial redução dos seus meios humanos, a INDEP sofre em 1997 uma profunda modernização do seu apetrechamento para produção de munições de armas ligeiras, sendo efectuados vultosos investimentos que transformaram esta unidade fabril, até ao ano 2000, numa das melhores do mundo, quer pela qualidade do seu equipamento e pessoal, quer pelo resultado final patente nas munições ali fabricadas. Nessa altura a INDEP praticamente já só fabricava munições; sendo tecnicamente autónoma não dependia de qualquer outra entidade para o seu fabrico, exportando para os mais variados países e clientes, sempre sob a designação “FNM”.

Ali foram produzidos diversos calibres e tipos de munições, nomeadamente para armas ligeiras, em todas as versões militares do 7,62x51mm; 7,62x39mm; 5,56x45mm; 9x19mm e 20mm TP M55 A2, bem como para armas civis, 8mmIS Mauser; .308 Winchester; .303 British; 6,5 Mauser e 7,63 Mauser. Continuaram a ser produzidas as munições sub-calibre, Regaña, que haviam começado a ser produzidas nos anos 70 ainda como FNMAL, bem como cartuchos de sinalização.

Em 2001 a INDEP/FNM, por resolução política, deixa de aceitar encomendas e começa a dispensar os seus meios humanos, iniciando assim a extinção de toda a sua actividade laboral. Em 2003 e 2004 todos os seus bens foram sujeitos a leilões públicos, à excepção de algum espólio salvaguardado com fins históricos.

6 – “Fábrica de Projécteis de Artilharia”

“Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata”

“Fábrica de Munições de Artilharia, Armamento e Viaturas”

“Fábrica Militar de Braço de Prata”(voltar ao topo)

“Indústrias Nacionais de Defesa, EP – INDEP”

“Indústrias e Participações de Defesa, SA – INDEP”

Entre os estabelecimentos dependentes do Arsenal do Exército e previstos no decreto real de 1902, encontrava-se a Fábrica de Material de Guerra, em Braço de Prata, cuja construção foi iniciada em 1904, sendo inaugurada em 12 de Outubro de 1907 (embora apenas tenha iniciado a sua laboração em 15 de Julho de 1908), como “Fábrica de Projécteis de Artilharia”, tendo os trabalhos decorrido sob a orientação do já anteriormente referido coronel de artilharia Francisco de Sales Ramos da Costa; contudo e desde logo, esta unidade fabril passou a ser mais conhecida por “Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata”. A partir daquela data constituiu-se como mais um dos estabelecimentos integrados no Arsenal, até à extinção deste em 1927, sendo formada por duas divisões, (“a primeira das quais destinada especialmente ao fabrico e concerto do material de artilharia propriamente dito, bem como ao de quaisquer viaturas para serviço do exército, e a segunda à manufactura e reparação dos restantes artigos de material de guerra”).

A manifesta insuficiência da produção realizada na Fundição de Canhões e na Fábrica de Armas, o rearmamento das forças militares efectuado em 1904 e a vontade de serem fabricadas no país as munições de artilharia necessárias ao abastecimento das novas armas adquiridas no estrangeiro, nomeadamente as peças Schneider-Canet, de calibre 75mm, levaram à construção desta fábrica.

Igualmente aqui foi levada a cabo a instalação, a partir de 1912, de uma importante oficina de espingardas, a qual todavia veria a sua eficiência ser prejudicada pela demasiada demora do seu acabamento. A entrada de Portugal na 1ª Grande Guerra originou uma enorme actividade nesta fábrica, cuja produção seria contudo altamente lesada pela saída de quase todos os seus engenheiros e operários especializados, mobilizados para constituírem equipas de reparação e apoio do material bélico durante o conflito.

Após o fim da guerra em 1918 a fábrica iniciou um penoso período de reduzida produção.

Em 1927 é reformulada alguma legislação em que nos denominados “Estabelecimentos Produtores do Ministério da Guerra” se integrava então a “Fábrica de Munições de Artilharia, Armamento e Viaturas”, designação pela qual passou a ser oficialmente conhecida.

Com o fim do Arsenal do Exército, a unidade ficou autónoma, vindo porém a beneficiar com esta separação, racionalizando e modernizando os seus métodos de trabalho, o que viria a mostrar-se extremamente positivo a partir de 1937, com a satisfação de significativas encomendas de armamento e munições necessárias ás forças armadas portuguesas, em grande e progressivo desenvolvimento, bem como contratos de compra efectuados por países estrangeiros.

É nesta década, mais propriamente em 1931, que aqui se inicia o fabrico do conhecido obus de 105 mm. Também por esta altura sofreu ampliações importantes para acolher novas maquinarias, nomeadamente os modernos fornos eléctricos de indução, permitindo obter o latão que após a respectiva laminagem (com maquinaria ali instalada), possibilitava o fabrico das caixas de cartucho para artilharia e as copelas para as munições de infantaria. Esta inovação veio igualmente beneficiar outros estabelecimentos fabris que assim passaram a poder obter mais facilmente as chapas de latão, cuja importação era naqueles tempos difícil.

No fim dos anos 30 e início da década de 40, face ao substancial aumento de encomendas motivadas pela guerra Civil Espanhola e 2ª Guerra Mundial, novas máquinas de fabricação de projécteis e dois fornos eléctricos de fundição de aço e gusa acerosa, necessária à produção dos mesmos, foram instaladas. Nessa época, mais propriamente no ano de 1947, passou a designar-se por “Fábrica Militar de Braço de Prata”, e (“destina-se especialmente ao fabrico e reparação de armamento; ao fabrico e beneficiação de munições de artilharia; ao fabrico de instrumentos de precisão, aparelhagem eléctrica e material de referenciação, necessários aos serviços militares; ao fabrico e reparação de viaturas hipomóveis e viaturas automóveis especializadas, destinadas à arma de artilharia ou ao serviço de munições, bem como ao fabrico e reparação de viaturas blindadas ou couraçadas, salvo, em qualquer caso, o que respeita aos órgãos motores; e ao fabrico de ferramentas necessárias à laboração das industrias militares.”) tendo sido esta nomenclatura que a identificou nas décadas seguintes, até à sua extinção.

fmbp 40

(Fábrica Militar de Braço de Prata – década de 40)

Tal como a FNMAL, também esta fábrica veio a beneficiar significativamente com a adesão de Portugal à OTAN e com a atribuição das ajudas financeiras do já referenciado Plano Marshall, com as quais foi possível investir no reequipamento e modernização a partir de 1952. Passou então em 1955 a dispor de duas linhas de produção dos componentes metálicos de munições de artilharia e de munições de morteiro de concepção mais moderna, dando assim satisfação à crescente procura nacional e internacional, que atingiria o seu zénite na década seguinte. Logo nesse ano iniciou o fabrico de um lote de 350.000 munições de artilharia de 105mm para os EUA e quatro anos depois um lote de 450.000 para a RFA.

Em Outubro de 1958 o Decreto-lei nº. 41.892 vem definir as normas orgânicas dos estabelecimentos fabris militares dependentes do Ministério do Exército, sendo que a Fábrica Militar de Braço de Prata passa a destinar-se (“ao fabrico e reparação de armamento de toda a espécie; ao fabrico e reparação de componentes ou sub componentes metálicos de munições para armamento de calibre a partir de 40 mm, inclusive; ao fabrico e reparação de instrumentos de precisão, aparelhagem eléctrica e material de referenciação ou de predição de tiro; ao fabrico e reparação de viaturas hipomóveis; ao fabrico e reparação de viaturas automóveis especializadas de artilharia, do serviço de munições e de viaturas blindadas ou couraçadas incluindo o seu armamento e equipamento, mas excluindo em todos os casos os respectivos motores; e ao fabrico de ferramentas necessárias à laboração das industrias militares.”)

Com o começo da guerra em África em 1961, evidenciou-se a indispensabilidade de dotar as FAP com uma arma mais moderna que viesse substituir a caduca espingarda Mauser. Apesar de já em 1960 se terem iniciado alguns estudos tendentes ao fabrico de uma espingarda automática na FMBP, só a partir de 1962, após obtenção da respectiva licença alemã, se principiou a produção parcial e montagem da conhecida HK-G3. No final dessa década incorporava-se então uma parte significativa de peças produzidas no país. Anos mais tarde, no auge do conflito, a FMBP produzia completamente cerca de 5.800 destas armas por mês, cabendo na mesma altura à FNMAL a responsabilidade da produção de munições suficientes para a sua utilização no quadro de guerra.

A FMBP e a FNMAL tiveram assim um papel primordial durante a guerra do Ultramar, tendo ambas constituído o suporte logístico necessário e fundamental ás Forças Armadas Portuguesas.

fbp

Fabrico da pistola-metralhadora FBP

carreg hk

Fabrico de carregadores da HK-G3

Em 1970, por iniciativa da FMBP, foi proposta a sua fusão com a FNMAL, uma vez que se complementavam mutuamente no mesmo ramo de produção, ao mesmo tempo que dividiam a ideia de que era rapidamente necessário reorganizar e impulsionar a indústria militar portuguesa, até por uma questão de futura sobrevivência das duas empresas.

Todavia, só em 1980 ocorreu tal união através do Decreto-Lei nº 515, de 31/10, que cria a empresa pública Indústrias Nacionais de Defesa, EP – INDEP, transcrevendo-se do respectivo preâmbulo:

“Em 19 de Março de 1947, a Lei n.º 2020 promulgou as bases relativas à organização dos estabelecimentos fabris do Exército, tendo mais tarde o Decreto-Lei n.º 41892, de 3 de Outubro de 1958, definido as respectivas normas orgânicas e regulamento interno. Por força destes diplomas legais, todos os estabelecimentos fabris dependentes do Ministério do Exército foram constituídos em institutos públicos, dotados de personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, submetendo-se a sua gestão a um regime de industrialização, de acordo com os princípios e normas que regulam a actividade das empresas privadas. Não obstante o carácter autónomo e empresarial destes serviços, veio a verificar-se ao longo do tempo que, em alguns deles, a sujeição a uma estrutura de direito público determinava certa rigidez na sua organização e gestão interna, bem como nas suas possibilidades de contratação. Por outro lado, a divisão entre os diversos estabelecimentos veio impedir a unificação de certos serviços afins e a articulação eficaz das suas actividades e a dificultar o exercício de uma função coordenadora da indústria nacional de armamento. Com a finalidade de possibilitar a viabilização económica da indústria militar em épocas de insuficiência de mercado para os produtos do seu objecto principal e de poder, mais amplamente, pôr à disposição da economia nacional o seu potencial tecnológico e de equipamento industrial, reconheceu-se a necessidade de alargar o seu objecto e permitir-lhe, em certas circunstâncias, a diversificação da sua gama de produção, com introdução de artigos para uso civil. A solução empresa pública permitirá uma adequação da estrutura das fábricas militares em causa aos objectivos visados. Os patrimónios da FMBP e da FNMAL são suficientes para garantir o funcionamento de uma empresa resultante da fusão dos referidos estabelecimentos, sem imediato recurso a outros capitais do Estado. O objecto principal da empresa a constituir situa-se numa esfera de actividades que, pela sua natureza e ligações profundas com o sector da defesa nacional, impõe que o seu controlo efectivo seja feito pelo Ministério da Defesa Nacional.

Nestes termos: O Governo decreta, nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo 201.º da Constituição, o seguinte:

Artigo 1.º – 1 – É criada pelo presente diploma a empresa pública Indústrias Nacionais de Defesa, E. P., abreviadamente INDEP, que substitui a Fábrica Militar de Braço de Prata e a Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras a partir da data de entrada em vigor deste diploma.”

Como já se disse, pelo Decreto-lei nº 517-A/80, dá-se a extinção da FNMAL, tendo o mesmo diploma extinguido também a Fábrica Militar de Braço de Prata, passando então o património de ambas para a alçada da INDEP.

O decreto-lei n.º 485/85, estabeleceu quais os bens imóveis que transitaram para a posse da INDEP.

Imóveis afectos à Fábrica Militar de Braço de Prata:

  1. a) Fábrica Militar de Braço de Prata, referenciado pelo Exército como PM-54 – Lisboa;
    b) Entreposto ou Armazém de Munições do Alto de Barcarena ou Velejas, referenciado pelo Exército como PM-107 – Oeiras;
    c) Casa da Guarda do Entreposto de Barcarena, referenciado pelo Exército como PM-110-Oeiras.

O decreto-lei 362/91, de 03/10, transforma a INDEP – Industrias Nacionais de Defesa, EP, em sociedade anónima de capitais públicos, passando a denominar-se “Indústrias e Participações de Defesa, SA. – INDEP .

Como previamente referido no artigo anterior, nos finais de 1996 a INDEP, SA. foi introduzida no grupo designado EMPORDEF – Empresas Portuguesas de Defesa.

Obrigada a deslocar-se da área de Braço de Prata, devido ás transformações arquitecturais efectuadas naquela zona da cidade de Lisboa, a FMBP foi integrada no parque industrial da FNMAL em Moscavide, vendo praticamente toda a sua laboração congelada a partir dessa altura.

Terminamos assim este breve passeio pela história das principais instituições e unidades fabris militares que existiram no nosso país e que fabricaram as munições e as armas necessárias ao funcionamento das estruturas militares e policiais aqui existentes.

Apesar de Portugal nunca ter sido, à excepção de curtos períodos temporais, auto-suficiente nesta matéria, por motivos cuja discussão neste momento e espaço não cabem, mas cujos fautores talvez um dia venham a ser historicamente responsabilizados, somos hoje totalmente dependentes de países terceiros, o que não deixa de ser preocupante face às constantes alterações geo-estratégicas e à rápida evolução político-militar do mundo actual.

Telmo Sequeira.
18 de Fevereiro de 2007

INTRODUÇÃO

Remonta à Antiguidade humana o gosto pelo coleccionismo de objectos, quer inicialmente de uma forma mais desorganizada e aleatória quer posteriormente de uma forma sistematizada e direccionada para objectos específicos.
Podemos encontrar nesta actividade os mais diversos e incríveis tipos de colecções, umas mais vulgares e fáceis de realizar, outras mais exóticas e difíceis de concretizar, nomeadamente pela raridade, custo ou dificuldade de conseguir novas peças.
O coleccionismo de munições e seus componentes, um dos fins visados pela nossa Associação e que constitui uma temática praticamente inesgotável face à enorme variedade de calibres e tipos existentes, insere-se indubitavelmente no tipo exótico e difícil de levar a cabo, não só pelas razões supra referidas como também pelas limitações de índole legal que por vezes de forma incompreensível espartilham esta actividade, seja ela meramente lúdica e individualista, seja ela técnico-didáctica e preservadora do património histórico e cultural de um país ou sociedade.
Talvez por isso o número de coleccionadores de munições existentes a nível mundial seja relativamente baixo, não fugindo o nosso país a esta regra, onde é escassíssimo o conjunto de pessoas que a tal se dedicam, sendo que alguns o fazem há vários anos na quase clandestinidade, por razões óbvias.
Perante o interesse suscitado pela sua maior invulgaridade, quando comparada por exemplo com outras temáticas de coleccionismo e aproveitando os novos ventos legislativos que não sendo óptimos, são bons, entendeu um grupo de amigos constituir a APCM, da qual o presente sítio (ou se preferirem, site) constitui um dos seus reflexos.
Aqui esperamos verter alguns artigos e opiniões apresentados pelos associados, reservando para os interessados em geral, o espaço de debate, troca de ideias e esclarecimentos técnicos que constituirá o nosso Fórum.

                                                                                                                  Telmo Sequeira.
7 de Novembro de 2006